A felicidade está dentro de nós

“A alegria não está nas coisas: está em nós.” Goethe

[O fruto da meditação é o que podemos chamar de uma maneira de ser óptima ou uma felicidade autêntica, verdadeira. Essa felicidade não é constituída por uma sucessão de sensações e de emoções agradáveis. Ela não é feita de coisas, objectos ou pessoas. É o sentimento profundo de termos concretizado da melhor forma o potencial de conhecimentos e de realizações que existe em nós. A prática da meditação é uma aventura que vale mesmo a pena.]

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Meditação

Quem participou no Programa 31 dias de Meditação está agora a celebrar 3 meses de meditação!!!! yupi 🙂 🙂 Celebrem bastante!!!

Meditar parece simples… e é! Mas é necessário treino, treino, treino, muito treino… 😉 ah e persistência!
Tal como treinamos uma actividade desportiva para melhorar a performance, a saúde e o bem-estar do nosso corpo, na meditação treinamos para melhorar a performance e o bem-estar da nossa mente.
Por onde começamos? Por treinar a presença, por estarmos despertos, atentos ao momento presente. Este é o primeiro e o mais importante passo! Depois com o treino e prática podemos desenvolver qualidades que nos vão ajudar a avançar para outros tipos de meditação.

É desejável mudar?

Poucas pessoas podem afirmar que não vale a pena melhorar nada na sua maneira de viver e na sua experiência do mundo. Há quem pense que os reveses e as emoções conflituais contribuem para a riqueza da vida e que é essa alquimia singular que faz delas o que são, pessoas únicas, devendo, pois, aprender a aceitar-se e apreciar os seus defeitos tal como as suas qualidades. Essas pessoas arriscam-se a viver numa insatisfação crónica sem se darem conta de que poderiam melhorar a troco de algum esforço e reflexão. […] Logo a verdadeira questão não é “É desejável mudar?” mas sim “É possível mudar?”. Com efeito podemos imaginar que as emoções perturbadoras estão tão intimamente associadas ao nosso espírito que não nos é possível desembaraçar-nos delas, a não ser destruindo uma parte de nós.

Não podemos escolher quem somos, mas podemos querer melhorar. Essa aspiração irá dar uma direcção ao nosso espírito. Como não basta uma simples desejo, competir-nos-á a nós concretizá-lo.[…] Dedicamos muitos esforços à melhoria das condições exteriores da nossa existência, mas, afinal é sempre o nosso espírito que vivência o mundo e o traduz sob a forma de bem-estar e sofrimento. Se transformarmos a nossa maneira de perceber as coisas, transformamos a qualidade da nossa vida. E essa mudança resulta de um treino do espírito a que chamamos “meditação”. 

Matthieu Ricard, em A arte da Meditação

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O Programa 31 dias de Meditação terminou na semana passada. Neste pouco tempo de prática (sim, um mês é pouco tempo :)) ouvi relatos de quem conseguiu dominar a ansiedade, de quem resolveu problemas de insónia, de quem sente um maior equilíbrio emocional, de quem passou a trabalhar com mais foco e atenção e até de quem conseguiu deixar de fumar !

Desejo do fundo do coração que todos consigam manter a  perseverança, pois este poucos benefícios que já sentem são só as migalhas. A meditação é um caminho fabuloso de evolução e transformação pessoal.

(Para os alunos, relembro que todas as sextas, às 18h30, temos prática de Meditação. É bom praticar em grupo, ajuda-nos a manter a motivação, a trocar ideias e tirar dúvidas, por isso, apareçam!)

Meditação sobre o vaivém da respiração

O Programa  31 dias de Meditação  já na terceira semana, e os participante já começam a relatar os benefícios que vão surgindo. Sabe tão bem ouvir… 🙂

Aqui fica o exercício desta semana!

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Sente-se confortavelmente, com as costas direitas, numa posição que deverá ser firme e confortável.

A partir de agora mantenha-se continuamente presente na sua respiração, sem a esquecer e sem se distrair.

Respire naturalmente, procure não interferir na sua respiração. Aceite-a tal qual ela lhe surge neste instante. Concentre a sua atenção na respiração que vai e vem…

Esteja particularmente presente na sensação criada pelo ar nas suas narinas, no local onde sente o ar com mais intensidade. Pode ser a entrada do nariz, ou um pouco mais no interior, ou ainda na parte mais alta, nos seios nasais. Ao expirar, procure aperceber-se do toque do ar junto ao lábio superior.

Repare também no momento em que a respiração se suspende, entre a expiração e a inspiração seguinte.

Depois, ao inspirar, concentre-se novamente no ponto em que sente o ar a passar, e repare no instante em que a respiração de detém um segundo entre essa inspiração e a expiração que se segue…

Concentre-se de forma idêntica no ciclo seguinte, respiração após respiração, sem qualquer tensão, mas também sem nos relaxarmos ao ponto de cair no torpor.

Observe a sua respiração, aceite-a, não interfira… Observe…
Não modifique a sua respiração. Seja a respiração longa ou curta, limite-se a estar consciente de que ela é longa ou curta.

Não tardará a cair na distracção, acompanhada de uma proliferação de pensamentos, ou num estado vago de semi-sonolência, ou ainda numa combinação dos dois. É aí que a atenção deve intervir: mal se dê conta de que a concentração se perdeu, limite-se a retomá-la, sem sobrevalorizar o facto com arrependimento ou culpa.

Simplesmente regresse à respiração, como a borboleta volta à flor depois de ter esvoaçado de um lado para o outro sem motivo aparente…

Olhar para dentro

Andamos pela vida em busca de um sentido.
Adquirimos bens materiais em busca de valor pessoal.
Procuramos pessoas com quem nos relacionar para amar e sentirmo-nos amados.
Tudo o que fazemos, tudo o que procuramos tem uma única razão: disseram-nos que devia ser assim. Então procuramos, ansiamos…

Quando é que paramos e olhamos para nós mesmos?
Quando é que paramos para sentir se estamos ou não confortáveis com tudo o que temos?
Quando é que paramos para escutar o nosso coração?
Se pensarmos bem estamos o tempo todo voltados para fora de nós mesmos.

“Para quê olhar para os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns dos quais que o não são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu próprio os sou, por dentro-”

 

Então a vida torna-se um jogo, queremos o que todos querem e ainda queremos ser felizes. Como sobreviver ao jogo, sem sermos engolidos pelo próprio jogo? E como encontrar essa tal de felicidade?

É claro que precisamos de nos adequar ao sistema social e humano, afinal fazemos parte dele. Mas não nos devemos encaixar como se fossemos uma mera figura decorativa. Cada um de nós tem um potencial imenso a ser desenvolvido. Para explorarmos o nosso potencial, para desenvolvermos a nossa consciência precisamos olhar para dentro, precisamos saber quem habita o nosso corpo, precisamos perceber o que nos traz satisfação, sensação de realização.

Este olhar para dentro precisa de tempo, paciência e coragem. Dentro de nós vamos descobrir medos, mentiras, passividade, comodismo. Olhar para dentro é um processo de autoconhecimento, é recuperar a nossa honestidade inata.

Como é que fazemos isso? A meditação pode ser um caminho!

“Estamos tão habituados a olhar apenas para fora de nós que perdemos o acesso ao nosso interior quase completamente. Estamos aterrorizados em relação a olharmos para dentro, porque a nossa cultura não nos deu qualquer ideia sobre o que iremos encontrar. Podemos até pensar que se olharmos para o nosso interior, estamos em perigo de encontrarmos a loucura. Este é um dos últimos e mais engenhosos recursos que o nosso ego utiliza para nos impedir de descobrirmos a nossa real natureza.

Portanto nós tornamos a nossa vida de tal forma agitada que eliminamos o mais pequeno “risco” de olharmos para nós próprios. Mesmo a simples ideia de meditarmos parece assustar as pessoas. Quando elas ouvem a expressão “sem ego” ou vazio, pensam que experimentar esses estados vai ser como ser atirado porta fora de uma nave espacial, para um frio e escuro vazio.

Nada podia estar mais longe da verdade.

Mas num mundo dedicado à distracção, o silêncio e a quietude assustam-nos; por isso protegemo-nos com barulho e uma actividade constante. Olhar para a natureza da nossa mente é a única coisa que  nos lembraríamos de fazer.”

Sogyal Rinpoche

Vamos meditar?

“Do your practice and all is coming”. Esta é provavelmente uma das mais famosas frases sobre Yôga. O autor é  Sri K. Pattabhi Jois, o fundador do Instituto de Pesquisa Ashtanga Yôga, em Mysore, na Índia.

Outra famosa frase famosa do mesmo autor: “One of the hardest parts about Yôga is getting on the mat.”

É mais pura verdade. Muitas vezes arranjamos as maiores desculpas/razões para não começar a nossa prática. Hoje porque não tenho tempo, amanhã porque tenho preguiça, depois de amanhã porque não apetece, e assim passam os nossos dias.

Praticar Yôga regularmente é desafiador: devido à vida familiar, trabalho, compromissos etc..E isso é normal. No entanto, praticar regularmente é fundamental. Não há nenhuma outra maneira de sentir as transformações que o Yôga proporciona ou aprender e beneficiar da prática se não a fizermos com regularidade.

A pensar nisso decidi criar o “Programa de 31 dias de Meditação”. São muitas as pessoas que falam comigo e revelam interesse/curiosidade sobre esta técnica*. Alguns têm apenas uma vaga ideia do que é meditação, outros já conhecem e já experimentaram, mas sentem dificuldade em praticar com regularidade.

O Programa de 31 dias de Meditação tem por objectivo ensinar a criar esse espaço/tempo para que a regularidade na prática venha sem esforço e sem stress para o praticante.

Os estudos científicos sobre meditação que têm vindo a publico nos últimos anos, dão conta de alterações no cérebro dos praticantes ao fim de oito de semanas de prática diária (com a duração de 20 minutos ou mais).

Não vou entrar em facilitismos e dizer que um minuto por dia chega, nem que praticar de vez em quando vai surtir efeito. Mas também não quero que ninguém desista à primeira tentativa, e por isso o Programa está pensado para que cada um possa ir evoluindo paulatinamente.

Podem ver mais detalhes deste evento aqui: “Programa 31 dias de Meditação”

*A meditação é uma prática muito antiga, com origem nas tradições orientais, estando especialmente relacionada às filosofias do Yôga e do Budismo. Contudo, esse termo também é utilizado para designar algumas práticas cultivadas por certas religiões, como o taoísmo e o xamanismo, entre outras, através do deslocamento da consciência do mundo externo para o interno. Sendo eu Professora de Yôga, vou abordar a meditação no âmbito do Yôga.

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É possível ter atenção plena usando smartphones e redes sociais?

Can one be mindful while being connected to social media and smartphone applications?
How does this affect our deep listening skills?

Estas foram as questões colocadas a Thich Nhat Hanh, mestre Zen de quem já falei aqui. Numa das suas sessões de perguntas e respostas em Plum Village, o carismático mestre respondeu de forma muito simples a estas perguntas.

“Acredito que a internet, os smartphones, os emails, podem nos ajudar a conectar uns aos outros, mas a comunicação tem estado mais difícil, mesmo com esses dispositivos electrónicos. Mesmo que ouçamos as notícias várias vezes ao dia, mesmo que comuniquemos uns com os outros várias vezes ao dia, isso não significa que a comunicação real seja possível. Ainda não entendemos uns aos outros. Ainda não entendemos o sofrimento e as dificuldades de nós mesmos, do outro”.
[…]
Por isso é que a atenção plena (mindfulness) é muito importante. Ajuda-nos a aliviar a tensão do nosso corpo, ajuda-nos a a encontrar-nos a nós próprios sem medo para reconhecer o  nosso sofrimento interior.”

As redes sociais realmente aumentaram a conexão, a partilha de ideias e de informação. Mas a comunicação real, profunda, aquela que realmente acontece quando há presença e interesse em ouvir o outro, em compreender o outro, essa tem-se tornado a cada dia mais difícil.

Tenho visto aqui ao meu lado adolescentes que não conseguem conversar olhos nos olhos, alunos que vêem para a aula de Yôga com o telemóvel na mão e depois saem da aula a correr para ir ver o telemóvel. Gente que não se deita sem verificar o telemóvel e acorda e a primeira coisa que faz é espreitar o que se passa nas redes sociais. Parece que deixou de existir espaço e tempo para quem está ao nosso lado e principalmente para nós mesmos.

Quais as consequências deste excesso de conexão virtual? São muitas, o vício  das redes sociais já é considerado uma dependência e tem consequências comprovadas na nossa capacidade de atenção, concentração, na qualidade dos nossos relacionamentos. Sintomas de crise de abstinência, como ansiedade, acessos de raiva, suores e até depressão quando há afastamento da rede, também são comuns.

Em muitos países europeus têm surgido retiros de detox das redes sociais e com bastante sucesso. Em Portugal já houve várias tentativas para implementar programas destes género, mas sem sucesso. Parece que os portugueses se recusam a admitir que estão viciados!

Para quem quiser entrar numa dieta virtual deixo algumas sugestões:

  1. Experimenta ter todas as semanas um dia sem net ou redes sociais.*
  2. Procura não usar os dispositivos electrónicos quando estás na companhia de amigos ou familiares. Lembra-te que o virtual pode esperar, o real não. Percebe que os momentos dos quais abres mão na vida real são bem mais difíceis de reproduzir que os virtuais.
  3. Avalia a tua necessidade de ter o smartphone ao teu lado na hora das refeições.
  4. Pratica meditação TODOS OS DIAS.

* No livro The miracle of mindfulness, Thich Nhat Hanh sugere que tenhamos um dia de atenção plena por semana. Vai muito além de eliminar o uso de internet ou redes sociais. Se tem interesse em aprofundar esta prática, veja as sugestões que são dadas no livro.

Nota: Mindfulness traduz-se como atenção plena ou atenção consciente, e não como meditação como se tem visto ultimamente em muitos artigos em revistas ou até em livros editados recentemente.