Técnicas corporais e meditação

Muitas pessoas acreditam que corpo e mente são duas coisas separadas. Esta ideia está muito presente na cultura ocidental, onde costumamos dividir-nos em corpo e mente. Talvez por isso, muitos ocidentais tenham dificuldade em entender porque é que o Yôga antigo tem uma prática de técnicas corporais bastante forte, se o objectivo da filosofia é atingir um estado expandido de consciência, ou seja,  um estado de meditação ou de hiper-consciência.

“Será que praticar meditação só não basta? Se o objectivo é atingir um  determinado estado da mente, porque é que não deixamos o corpo de lado e trabalhamos só a mente?” Estas são  as perguntas que muitas vezes fazem os alunos que se estão a iniciar-se no Yôga.

No oriente, onde o Yôga surgiu, a visão sempre foi mais holística. Para o Yôga, nós somos unos, corpo e mente são um todo integrado e inseparável, de modo que tudo aquilo que eu faço ou acontece no meu corpo, tem uma consequência simultânea na minha mente. Da mesma maneira, todo o acontecimento mental tem um impacto imediato no meu corpo.

Todos os dias sentimos essa ligação. Quando não damos descanso suficiente ao corpo físico, isso tem um impacto imediato na mente. Sentimos logo que a concentração e a memória ficam afectadas, e percebemos que o raciocínio não é tão claro e rápido como desejaríamos. O mesmo acontece quando passamos muitas horas sem comer, a falta de alimento afecta o corpo físico e tem um reflexo imediato no nosso plano mental e emocional. É muito comum ouvir as pessoas queixarem-se de irritação quando surge a sensação de fome.

Mas a relação inversa também acontece. Quando temos a mente carregada de pensamentos tristes e negativos, o corpo físico reage e toda a nossa expressão corporal denota tristeza, por outro lado, quando os pensamentos são positivos e bem humorados sentimos o corpo mais disposto e forte.

a tua prática

Percebendo que existe uma ligação entre corpo e mente, é fácil entender o papel das técnicas corporais na busca do auto-conhecimento.

As técnicas corporais do Yôga possuem três factores:

1. Posição (deve ser estável, confortável e estética)

2. Respiração coordenada (deve ser consciente, profunda e ritmada)

3. Atitude interior (deve ter localização da consciência, mentalização e intenção)

Nos primeiros tempos de prática de Yôga vamos dar mais atenção aos dois primeiros factores, e com isso vamos conquistar melhor condição física e energética, que nos vais proporcionar bem estar, descontracção e mente limpa, e no fundo uma sensação de estarmos de bem com a vida.

Mais tarde, começamos a conquista do terceiro factor, trazemos a mente para o momento presente, alteramos estados de consciência através da mentalização e procuramos uma sensação de plenitude, e assim são geradas as  condições ideais para uma meditação bem sucedida.

#1 Livros que li e recomendo – The Miracle of Mindfulness

Thich Nhat Hanh é um dos mestres do zen-budismo mais conhecidos e respeitados no mundo de hoje. É também poeta e activista da paz e dos direitos humanos. Tem uma história de vida incrível que podem conhecer aqui: Plum Village.

É sem dúvida um dos grandes professores do nosso tempo. Tem um modo de se expressar muito simples, mas a sua mensagem revela a pureza do profundo entendimento da realidade que vem certamente das suas meditações e do seu trabalho em prol da comunidade.

Um dos seus livros mais conhecidos, The Miracle of Mindfulness – Introduction to the Practice of Meditation, apresenta uma abordagem muito interessante para despertar a atenção plena (mindfulness), que é essencial para se alcançar o estado de meditação. O livro contém vários exercício e dicas excelentes para aplicar no dia-a-dia.

Partilho um pequeno trecho:

“While washing the dishes one should only be washing the dishes, which means that while washing the dishes one should be completely aware of the fact that one is washing the dishes.

At first glance, that might seem a little silly: why put so much stress on a simple thing? But that’s precisely the point. The fact that I am standing there and washing these bowls is a wondrous reality. I’m being completely myself, following my breath, conscious of my presence and conscious of my thoughts and actions. There’s no way I can be tossed around mindlessly like a bottle slapped here and there on the waves.”

Quantas vezes não vivemos em piloto automático, sem consciência nenhuma do momento? Realizamos as tarefas mais simples completamente dispersos e relacionamo-nos com os outros sem lhes dar verdadeiramente a nossa atenção.  Tarefas corriqueiras, como lavar a loiça, podem ser um óptimo treino para trazer a nossa mente para a atenção plena.

A prática da atenção plena traz-nos para o momento presente, e faz-nos viver mais intensamente. Por experiência, sei que quando pratico a atenção plena no meu dia-a-dia, a prática de meditação se torna muito mais fácil, e o melhor de tudo é a sensação de que vivo muito mais!

Recomendo vivamente a leitura do The Miracle of Mindfulness – Introduction to the Practice of Meditation,  a todos os interessados em melhorar a sua prática de meditação!

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Pratica.Sente.Conscientiza

Quem se dedica ao Yôga sabe que a prática desta filosofia de vida induz o praticante ao constante esforço sobre si mesmo e a um aprimoramento que vai muito além do aumento da força, flexibilidade e consciência corporal, pois leva-o a uma percepção mais ampla das suas emoções, pensamentos e das características mais profundas da sua personalidade.

Nesta maravilhosa viagem rumo ao auto-conhecimento aprendemos:

> A respirar 

Existe uma relação directa entre a  respiração e os nossos estados emocionais e mentais.

Quando estamos descontraídos, a respiração é mais longa e os batimentos cardíacos são mais lentos. Ao contrário, quando estamos tensos ou ansiosos, a respiração é curta e os batimentos são mais rápidos. Normalmente, estamos presos a essa estrutura. Mas quando começamos a praticar as técnicas respiratórias do Yôga aprendemos interferir positivamente nesse processo – aceleramos a respiração para aumentar os batimentos e o estado de alerta, e diminuímos seu ritmo para reduzir os batimentos e a ansiedade. Com isso geramos energia, vitalidade, mas também capacidade de foco e atenção.

> A Trabalhar o corpo

As técnicas corporais do Yôga trabalham intensamente o corpo. É verdade que ficamos mais fortes, flexíveis e com o corpo mais tonificado. No entanto, a prática vai muito além do físico, já que damos ênfase à permanência nas técnicas em detrimento da sua repetição.

A permanência permite que o corpo explore os efeitos mais profundos de cada técnica, e permite-nos trabalhar a nossa capacidade de auto-superação, pois muitas vezes precisamos recorrer de todo a nossa força mental e emocional para executar cada exercício.

> A descontrair

As técnicas de descontração ensinam a relaxar toda a musculatura, permitem-nos recuperar do esforço, cansaço e stress do dia-a-dia, ajudam-nos a melhorar o sono e o bom-humor.  Além disso, conduzem-nos a um  altíssimo nível de consciência corporal, ajudam-nos a reeducar hábitos e comportamentos, a aumentar os níveis de vitalidade e a melhorar a gestão das nossas emoções.

>  A concentrar e meditar

O Yôga desenvolve de maneira superlativa a nossa capacidade de concentração. A concentração é essencial para desenvolvermos melhor as nossas tarefas no trabalho, nos estudos etc., mas permite-nos também concretizar a conquista de objectivos a médio e longo prazo. A concentração permite-nos gerar um fio condutor na nossa vida.

Por outro lado, a meditação exacerba a vivência do momento presente e, nesse processo todo o nosso potencial vem à tona.


Com a prática constante e empenhada conquistamos uma percepção mais profunda de nós mesmos, construímos uma vida plena, realizada e feliz!

Yôga e auto-conhecimento

Na prática de Yôga há três coisas que devem estar presentes para se alcançar o auto-conhecimento:

 Tapas (auto-superação): o praticante deve observar constante esforço sobre si mesmo no sentido de fazer melhor a cada dia.

O verdadeiro praticante de Yôga não é necessariamente  aquele que faz as técnicas mais acrobáticas com o corpo, mas é sem dúvida aquele que se entrega, que está na prática por inteiro e que dá o melhor de si. É aquele que se motiva e cresce com os desafios e não esmorece perante as dificuldades.

– Swádhyáya (auto-estudo): o yôgin deve buscar o auto-conhecimento através da observação de si mesmo.

O auto-estudo é um dos pilares da prática. A nossa mente deve estar presente em cada técnica. Mas é uma mente “observadora” e não “julgadora”. Observe-se sem fazer juízos de valor, não se critique e não se rotule. E principalmente, não se compare com os outros.

– Íshwara pranidhána (auto-entrega): o yôgin deve estar sempre interiormente seguro e confiante em que a vida segue o seu curso, obedecendo a leis naturais e que todo o esforço para a auto-superação deve ser conquistado sem ansiedade.

Não tenha expectativas. No Yôga o mais importante é manter a regularidade na prática. O Yôga é o caminho, é o dia-a-dia. Por isso, saboreie cada prática, cada técnica, cada nova experiência  sem ficar demasiado focado nos resultados.

desenho

A prática é uma espécie de laboratório onde nos desafiamos e testamos, mas principalmente onde nos observamos e nos vamos conhecendo. Se por um lado a prática reflecte quem somos, por outro ajuda-nos a ser quem desejamos ser.

Em cada prática, procure trabalhar a sua atitude perante a vida. Por exemplo, se durante a aula desiste e fica desmotivado perante as dificuldades, então provavelmente o mesmo acontece na sua vida quando se depara com estímulos semelhantes. Se é difícil concentrar-se durante a aula, talvez sinta essa mesma dificuldade quando está a trabalhar ou a estudar. Se tem por hábito comparar-se com os colegas enquanto pratica, talvez tenha o hábito de comparar a sua vida com a dos outros. Os exemplos são infinitos.

O que somos e o que fazemos é igual, dentro e fora da sala. Por isso, a auto-observação é essencial para que possa começar a construir uma versão melhor de si próprio. Quando praticamos as técnicas do Yôga estamos a construir um novo corpo, se praticarmos com consciência construiremos um novo ser!

Foco

Foco – O Motor Oculto da Excelência é o novo livro de Daniel Goleman, autor do best-seller Inteligência Emocional.

Vivemos na era das distracções, onde manter a atenção e desenvolver concentração é cada vez mais difícil. Mas para Daniel Goleman, a atenção é como um músculo que pode ser treinado, e quem  o faz consegue mais e melhores resultados. Por isso, torna-se essencial aprender a apurar o nosso foco se queremos ser bem sucedidos no mundo complexo e agitado dos dias de hoje.

Segundo o autor existem três tipos de foco: o interno, o externo e o empático.

Foco interno é quando estamos cientes dos nossos pensamentos, dos nossos sentimentos. É a habilidade de nos concentrarmos apesar do que há ao nosso redor. O foco interno é essencial para nos motivarmos, para termos metas, para tomarmos decisões.

Foco externo está relacionado com a capacidade de se perceber e compreender os sistemas maiores que têm  impacto as nossas vidas, seja a dinâmica de uma organização, de uma escola ou de um negócio.

Foco empático está relacionado com a forma como entendemos e nos relacionamos com as outras pessoas. É importante para quem quiser ser um bom líder.

Quando se fala de foco, atenção, concentração acaba sempre por surgir o tema meditação. Inúmeros estudos comprovam que a prática regular de meditação nos deixa mais focados, com mais atenção e mais criatividade. No livro, Goleman dá o exemplo de Steve Jobs, como alguém com alto poder de foco. Jobs praticava meditação!

Eu concordo com o Daniel Goleman, é preciso foco e atenção para alcançar sucesso nos dias de hoje. No entanto esta era da informação e das novas tecnologias está a levar-nos no sentido oposto. Por isso, faz cada vez mais sentido adoptar uma filosofia de vida como o Yôga, onde além da meditação aprendemos muitas outras técnicas que nos ajudam a direccionar o pensamento e ficar focados!