A Dança de Shiva

Na Índia do sul, uma das variações mais conhecidas da dança de Shiva é a Nadanta, representada na figura: esse bronze é recente, eu o trouxe há poucos anos do Tamil Nadu, onde seu culto ainda é bem vivo! Para facilitar sua decifração, as “chaves” principais foram sumariamente escritas no desenho. Embora esses símbolos sejam evidentes para os indianos, nós precisamos de indicações suplementares.

O mais notável neste bronze são os quatro braços de Shiva.
O tambor na mão direita confirma sua origem pré-ariana: os dravidianos são formidáveis com o tambor. Simbolicamente, o tambor, o damara, é o som primordial. O Unmai Villakam, versículo 36, diz: “A criação vem do tambor…”. Será isso uma surpreendente intuição do big-bang da física moderna? A concordância é, pelo menos, perturbadora.

Com a mão direita, erguida em abhaya mudrá, Shiva diz: “Eu protejo“.

O fogo, que transforma e destrói, surge na mão que toca o aro em chamas. Afronta para os brahmanes, Shiva reúne em si três funções cósmicas: criação, proteção, dissolução. Para eles, Brahma cria, Vishnu protege, e deixaram para Shiva o poder inglório de destruir!
Enfim, a mão que aponta para o pé esquerdo erguido libera aquele que penetra o mito, revelando-lhe a essência do cosmo.

O pé direito esmaga um anão maléfico: para os tântricos, é seu ex-sogro ariano, responsável pela morte da doce Sati, mas, “oficialmente” é o demônio Muyalaka com uma serpente. O conjunto repousa num pedestal em forma de lótus.

Sua cabeleira reúne muitos símbolos. Jóias ornam seus cabelos trançados, cujas mechas inferiores dão voltas, indicando a impetuosidade de sua dança, que mantém o universo. Outra fantástica intuição: no grão de areia, para mim insignificante e imóvel, os elétrons giram em torno de si mesmos (o spin), “valsando” ao redor do núcleo dos átomos a milhões de quilômetros por segundo. Se, no cosmo, de repente, todos os elétrons, assim como a energia cósmica, parassem, o universo cairia de imediato no “nada dinâmico” (akâsha) de onde proveio!

Uma serpente se enrosca em seus cabelos, sem lhe fazer mal.

O crânio é de Brahma! A ninfa diz que o Ganges brota do alto de sua cabeça. Enfim, o crescente lunar. Sua cabeça é coroada com uma guirlanda deCássia, planta sagrada. Em sua orelha direita, um brinco de homem, na esquerda, um brinco de mulher, indicando que ele reúne em si os dois sexos.

Suas jóias acentuam sua divindade: usa ricos colares no pescoço, seu cinto é coberto de jóias preciosas, braceletes ornam seus pulsos, seus tornozelos, seus braços, e leva anéis nos dedos e nos artelhos! Veste um calção de pele de tigre e uma faixa. Para afrontar os brahmanes, ele também usa o cordão sagrado.

Todo o conjunto transmite uma impressão de impetuosidade graciosa, leve e fácil: Shiva-Lila é um “jogo”! Apesar de sua dança desenfreada, o rosto de Shiva continua sereno. Na fronte, abre-se o terceiro olho, da intuição, que atravessa as aparências e transcende o sensorial.

Para quem sabe ver e, principalmente, perceber, a dança de Shiva, numa concisão comovente, revela o Supremo. Assim, Shiva é Nataraja, o rei da Dança.

André Van Lysebeth in Tantra, O culto da Feminilidade, da Editora Summus

shiva explicado
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