Meditação

Quem participou no Programa 31 dias de Meditação está agora a celebrar 3 meses de meditação!!!! yupi 🙂 🙂 Celebrem bastante!!!

Meditar parece simples… e é! Mas é necessário treino, treino, treino, muito treino… 😉 ah e persistência!
Tal como treinamos uma actividade desportiva para melhorar a performance, a saúde e o bem-estar do nosso corpo, na meditação treinamos para melhorar a performance e o bem-estar da nossa mente.
Por onde começamos? Por treinar a presença, por estarmos despertos, atentos ao momento presente. Este é o primeiro e o mais importante passo! Depois com o treino e prática podemos desenvolver qualidades que nos vão ajudar a avançar para outros tipos de meditação.

Sem tesão não há solução

Muitas alunos comentam comigo o quanto gostariam de ter mais disciplina.
Disciplina para praticarem Yôga em casa, disciplina para meditarem todos os dias, disciplina para realizarem os seus hobbys preferidos, enfim a disciplina às vezes parece o segredo para resolver todos os males. Na minha opinião, o que falta muitas vezes é motivação, que também podemos chamar de paixão ou tesão!
Na década de 80 um psiquiatra brasileiro lançou um livro com o título: “Sem tesão não há solução”. Neste livro ele fala de um tipo de desejo que extrapola o sexual e é a força motivadora da vida.

Um vida bem vivida precisa de tesão por tudo, pelas pessoas, pelos lugares, pelas experiências, pelo trabalho, pelas relações, pela vida!

A sociedade actual sofre de “impotência vital”. As pessoas acordam e deitam-se todos os dias sem conseguirem realizar o seu potencial único e principalmente sem aproveitarem o prazer de estarem vivos. Vivem agarradas à internet em busca de blogs de viagens para aprenderem a viajar, dos livros de auto-ajuda em busca de uma qualquer motivação para melhorarem as suas vidas, das contas de instagram para se tornarem fits e saudáveis. Não vivem o momento, não se apaixonam pelas pequenas coisas, não apreciam o que é simples, não amam o que já têm…

“É chegado o momento de acrescentarmos ao tempo e ao espaço mais uma dimensão fundamental à vida no Universo: o Tesão,…

o estar física e emocionalmente em prontidão, alertas, atentos, disponíveis, sintonizados, sensibilizados, sensorializados, sensualizados a todos os estímulos internos e externos da vida quotidiana […]

graças a essa dimensão, nós sentimos a vida à flor da pele, podemos fazer fluir e tornar disponíveis nossos potenciais humanos e biológicos […]

Finalmente, ela nos faz criar, amar, jogar, brincar, lutar pelo simples e encantado prazer de estar vivo. […]

Hoje, perder o tesão significa também se desinteressar. Mas trata-se de um desinteresse que não é apenas mental, existencial, mas também corporal e sensorial […]

Este tesão o faz ligar-se, forte e apaixonadamente, sem necessitar nenhuma explicação consciente, a tudo o que lhe proporciona beleza, alegria e prazer. […]

É isso também que os leva a não ser, espontaneamente, nem mórbidos e nem pessimistas […]

é a principal arma que dispomos para lutar contra todas as tentativas de nos imporem as dependências, as limitações e as culpas […]

na sociedade burguesa os mortos comandam os vivos, num processo de desvivência progressiva, contra o qual, nós, os que optamos pela ideologia do tesão, temos de nos insurgir […]
Pois concordo com o pichador de parede que escreveu esta frase no muro de um cemitério em São Paulo: Sem tesão não há solução […]”

Live

É desejável mudar?

Poucas pessoas podem afirmar que não vale a pena melhorar nada na sua maneira de viver e na sua experiência do mundo. Há quem pense que os reveses e as emoções conflituais contribuem para a riqueza da vida e que é essa alquimia singular que faz delas o que são, pessoas únicas, devendo, pois, aprender a aceitar-se e apreciar os seus defeitos tal como as suas qualidades. Essas pessoas arriscam-se a viver numa insatisfação crónica sem se darem conta de que poderiam melhorar a troco de algum esforço e reflexão. […] Logo a verdadeira questão não é “É desejável mudar?” mas sim “É possível mudar?”. Com efeito podemos imaginar que as emoções perturbadoras estão tão intimamente associadas ao nosso espírito que não nos é possível desembaraçar-nos delas, a não ser destruindo uma parte de nós.

Não podemos escolher quem somos, mas podemos querer melhorar. Essa aspiração irá dar uma direcção ao nosso espírito. Como não basta uma simples desejo, competir-nos-á a nós concretizá-lo.[…] Dedicamos muitos esforços à melhoria das condições exteriores da nossa existência, mas, afinal é sempre o nosso espírito que vivência o mundo e o traduz sob a forma de bem-estar e sofrimento. Se transformarmos a nossa maneira de perceber as coisas, transformamos a qualidade da nossa vida. E essa mudança resulta de um treino do espírito a que chamamos “meditação”. 

Matthieu Ricard, em A arte da Meditação

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O Programa 31 dias de Meditação terminou na semana passada. Neste pouco tempo de prática (sim, um mês é pouco tempo :)) ouvi relatos de quem conseguiu dominar a ansiedade, de quem resolveu problemas de insónia, de quem sente um maior equilíbrio emocional, de quem passou a trabalhar com mais foco e atenção e até de quem conseguiu deixar de fumar !

Desejo do fundo do coração que todos consigam manter a  perseverança, pois este poucos benefícios que já sentem são só as migalhas. A meditação é um caminho fabuloso de evolução e transformação pessoal.

(Para os alunos, relembro que todas as sextas, às 18h30, temos prática de Meditação. É bom praticar em grupo, ajuda-nos a manter a motivação, a trocar ideias e tirar dúvidas, por isso, apareçam!)

Tempo e resultados

Uma pergunta que quase todo o aluno iniciante me faz é : quanto tempo vou demorar para conseguir  fazer a técnica x ou para conseguir o resultado y?

O tempo que se demora para dominar uma técnica seja ela um ásana, um pránáyáma ou um exercício de meditação, depende sempre de inúmeros factores. Desde a forma física, passando pela atitude emocional, e claro  a regularidade e a intensidade com que se pratica. Tudo isso faz com que seja difícil dar uma resposta.

Mas na verdade, o tempo e os resultados não são o mais importante. Como já alguém disse: “Yoga is not about touching your toes, it is what you learn on the way down”.

Para lidar melhor com a ansiedade que tempo/resultados possam gerar observe o seguinte quando estiver a praticar:

  • Mente focada no momento presente:  observe a acção, a execução, as sensações, percepções, sem deixar que  o fluxo de pensamentos e emoções leve a sua mente para outro lugar que não a sala de prática. Mantenha-se atento, sem julgar nem criticar. Atento para conhecer, ampliar a consciência de si mesmo. É nesse ampliar diário de consciência que se conquista o Yôga. Quando a mente estiver a vaguear pelas preocupações do dia-a-dia, diga-lhe delicadamente: “agora não, agora é tempo de estar aqui”.

 

  • Pratique sem expectativas. Se o foco estiver sempre nos resultados, a prática será frustrante, pois tudo o que conseguimos fazer “agora”  é distante do resultado almejado. Delicie-se com a experiência, aproveite o caminho. Tire prazer de cada prática que faz. Estabeleça objectivos sim, até porque ter objectivos nos deixa mais motivados, mas faça isso longe da sala de prática.  Escreva os seus objectivos num caderno, mas depois arrume o caderno e vá praticar apenas pelo prazer de praticar. Depois, de tempos a tempos, volte ao caderno para anotar tudo o que conquistou entretanto e celebre! É muito bom celebrar conquistas.

 

  • Persistência  e regularidade, são as únicas coisas que podem transformar um “não consigo” num “ah consegui”!  Não falhe práticas, não invente desculpas para não praticar!

 

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Meditação sobre o vaivém da respiração

O Programa  31 dias de Meditação  já na terceira semana, e os participante já começam a relatar os benefícios que vão surgindo. Sabe tão bem ouvir…🙂

Aqui fica o exercício desta semana!

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Sente-se confortavelmente, com as costas direitas, numa posição que deverá ser firme e confortável.

A partir de agora mantenha-se continuamente presente na sua respiração, sem a esquecer e sem se distrair.

Respire naturalmente, procure não interferir na sua respiração. Aceite-a tal qual ela lhe surge neste instante. Concentre a sua atenção na respiração que vai e vem…

Esteja particularmente presente na sensação criada pelo ar nas suas narinas, no local onde sente o ar com mais intensidade. Pode ser a entrada do nariz, ou um pouco mais no interior, ou ainda na parte mais alta, nos seios nasais. Ao expirar, procure aperceber-se do toque do ar junto ao lábio superior.

Repare também no momento em que a respiração se suspende, entre a expiração e a inspiração seguinte.

Depois, ao inspirar, concentre-se novamente no ponto em que sente o ar a passar, e repare no instante em que a respiração de detém um segundo entre essa inspiração e a expiração que se segue…

Concentre-se de forma idêntica no ciclo seguinte, respiração após respiração, sem qualquer tensão, mas também sem nos relaxarmos ao ponto de cair no torpor.

Observe a sua respiração, aceite-a, não interfira… Observe…
Não modifique a sua respiração. Seja a respiração longa ou curta, limite-se a estar consciente de que ela é longa ou curta.

Não tardará a cair na distracção, acompanhada de uma proliferação de pensamentos, ou num estado vago de semi-sonolência, ou ainda numa combinação dos dois. É aí que a atenção deve intervir: mal se dê conta de que a concentração se perdeu, limite-se a retomá-la, sem sobrevalorizar o facto com arrependimento ou culpa.

Simplesmente regresse à respiração, como a borboleta volta à flor depois de ter esvoaçado de um lado para o outro sem motivo aparente…

Olhar para dentro

Andamos pela vida em busca de um sentido.
Adquirimos bens materiais em busca de valor pessoal.
Procuramos pessoas com quem nos relacionar para amar e sentirmo-nos amados.
Tudo o que fazemos, tudo o que procuramos tem uma única razão: disseram-nos que devia ser assim. Então procuramos, ansiamos…

Quando é que paramos e olhamos para nós mesmos?
Quando é que paramos para sentir se estamos ou não confortáveis com tudo o que temos?
Quando é que paramos para escutar o nosso coração?
Se pensarmos bem estamos o tempo todo voltados para fora de nós mesmos.

“Para quê olhar para os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns dos quais que o não são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu próprio os sou, por dentro-”

 

Então a vida torna-se um jogo, queremos o que todos querem e ainda queremos ser felizes. Como sobreviver ao jogo, sem sermos engolidos pelo próprio jogo? E como encontrar essa tal de felicidade?

É claro que precisamos de nos adequar ao sistema social e humano, afinal fazemos parte dele. Mas não nos devemos encaixar como se fossemos uma mera figura decorativa. Cada um de nós tem um potencial imenso a ser desenvolvido. Para explorarmos o nosso potencial, para desenvolvermos a nossa consciência precisamos olhar para dentro, precisamos saber quem habita o nosso corpo, precisamos perceber o que nos traz satisfação, sensação de realização.

Este olhar para dentro precisa de tempo, paciência e coragem. Dentro de nós vamos descobrir medos, mentiras, passividade, comodismo. Olhar para dentro é um processo de autoconhecimento, é recuperar a nossa honestidade inata.

Como é que fazemos isso? A meditação pode ser um caminho!

“Estamos tão habituados a olhar apenas para fora de nós que perdemos o acesso ao nosso interior quase completamente. Estamos aterrorizados em relação a olharmos para dentro, porque a nossa cultura não nos deu qualquer ideia sobre o que iremos encontrar. Podemos até pensar que se olharmos para o nosso interior, estamos em perigo de encontrarmos a loucura. Este é um dos últimos e mais engenhosos recursos que o nosso ego utiliza para nos impedir de descobrirmos a nossa real natureza.

Portanto nós tornamos a nossa vida de tal forma agitada que eliminamos o mais pequeno “risco” de olharmos para nós próprios. Mesmo a simples ideia de meditarmos parece assustar as pessoas. Quando elas ouvem a expressão “sem ego” ou vazio, pensam que experimentar esses estados vai ser como ser atirado porta fora de uma nave espacial, para um frio e escuro vazio.

Nada podia estar mais longe da verdade.

Mas num mundo dedicado à distracção, o silêncio e a quietude assustam-nos; por isso protegemo-nos com barulho e uma actividade constante. Olhar para a natureza da nossa mente é a única coisa que  nos lembraríamos de fazer.”

Sogyal Rinpoche

Wherever you go, there you are

Quantas vezes já deste por ti a dizer “eu não consigo meditar” ou “eu devo estar a fazer algo errado na minha meditação” ?

“Suspeito que muitas pessoas me colocam esta questão porque acham que toda a gente consegue meditar… menos elas. Elas querem ser reasseguradas que não estão sós, que há pelo menos mais algumas pessoas com quem se podem identificar, aquelas pobres almas que nasceram incapazes de meditar. Mas não é assim tão simples…

Pensar que se é incapaz de meditar é equivalente a pensar que se é incapaz de respirar, concentrar ou relaxar. Quase toda a gente consegue respirar facilmente. E nas circunstâncias certas, a maioria das pessoas também se consegue concentrar e relaxar.

As pessoas frequentemente confundem a meditação com o relaxamento ou algum outro estado especial que se tem de atingir. Quando se tenta uma ou duas vezes e de facto não se chega a nenhum estado em especial, então normalmente as pessoas pensam que simplesmente… não conseguem meditar.

Mas a meditação não tem que ver com sentir algo em específico.

Tem que ver com simplesmente sentir… o que se sente. Não se pretende que esvaziemos a nossa mente, ainda que a tranquilidade que acontece na meditação possa ser cultivada sistematicamente. Acima de tudo, a meditação implica deixarmos a mente ser como ela é, e sabermos algo sobre como ela está em dado momento. Não se pretende que cheguemos a algum sítio em especial, mas apenas permitir-mo-nos estar onde já estamos. Caso não consigamos entender estes argumentos, então pensaremos que somos incapazes de meditar. Mas isso são simplesmente mais pensamentos, e neste caso em específico, pensamentos incorrectos.

É verdade que a meditação requer energia e um compromisso com a nossa prática. Mas então, não seria mais correcto dizermos: “Eu não vou continuar a tentar” em vez de “Eu não consigo”? Qualquer pessoa se consegue sentar e observar a sua respiração ou observar a sua mente. E nem sequer precisamos de estar sentados. Podemos andar, estar simplesmente de pé, deitados, apenas numa perna, a correr ou a tomar banho. Mas permanecer em meditação durante pelo menos 5 minutos requer intencionalidade. Integrar esta prática na nossa vida requer alguma disciplina. Por isso quando as pessoas dizem que não conseguem meditar, aquilo que elas realmente querem dizer é que não planearão tempo para isso, ou que quando tentam, não gostam do que acontece. Não é o que elas esperavam que fosse. Não cumpre as suas expectativas.

Por isso talvez pudessem tentar de novo, desta vez deixando cair as suas expectativas e simplesmente estando atentas.”

Jon Kabat-Zinn, “Wherever you go, there you are“